Telefones : (17) 3237 - 2955 | (17) 99772 - 0811

CRÍTICA DA REVISTA CULT – SÃO PAULO/SP

CRÍTICA DA REVISTA CULT – SÃO PAULO/SP

ALGUMA COISA SEGUE SEU CURSO.

“Onde, por vezes, a palavra falha,
O silêncio da pura inocência convence”.
William Shakespeare, Conto de inverno.

MUNDOMUDO, o espetáculo com o qual a Cia. Azul Celeste comemora 25 anos de carreira está assentado sobre algumas espessas camadas de sentido, talvez invisíveis àqueles que se deixem rapidamente envolver pelo halo de destra singeleza que exala do palco do auditório do Sesc Pinheiros, onde ele cumpre temporada até o início de julho. Com direção de Georgette Fadel e dramaturgia de Cíntia Alves, a encenação reúne dois intérpretes – Jorge Vermelho e Henrique Nerys – que dão vida a uma dupla de palhaços cujas figuras evocam alguns símbolos teatrais não somente congruentes ao trabalho do próprio grupo, mas também relacionados à longa tradição das formas do cômico no Ocidente.
A Cia. Azul Celeste foi fundada em março de 1989 pelos atores Jorge Vermelho e Cássio Ibrahim, em São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo, tendo montado até agora mais de duas dezenas de espetáculos, dois dos quais dedicados à linguagem do circo-teatro: O céu uniu dois corações, de 1991, e Coração materno, de 1998. Mais recentemente, em 2013, o tema circense voltou a fazer parte das preocupações do grupo, por meio de uma pesquisa sobre a figura do palhaço. E o processo de trabalho que começou a ser ali desenvolvido adquiriu maior amplitude a partir do momento em que passou a se relacionar com a obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), na qual a presença do clown, embora filiada de modo indissociável à tradição do circo, acabe por dissimular tal tradição, ao adquirir os contornos de uma investigação de natureza metafisica.

MUNDOMUDO é um exercício bastante singular em torno de Fin de partie (1956), traduzido em português tanto como Fim de partida (por Fábio de Souza Andrade, um dos maiores especialistas brasileiros no autor irlandês), como por Fim de jogo, forma pela qual opta a montagem ao incorporá-la, inclusive, a um cartazete colocado com sutileza no palco, à esquerda de quem está na plateia, logo no começo da apresentação. A peça tem início com a entrada em cena do personagem representado por Jorge Vermelho, que rapidamente se impõe diante do espectador por sua forte presença. Trata-se de um palhaço alto, corpulento, desengonçado. Um tanto quanto abobalhado e patético, mas – como seria de se esperar – movido por irrestrita afetividade e comovente empatia. É ele quem põe em cena o pequeno cartaz que anuncia o programa da noite: Fim de jogo. Após um divertido embate com uma lâmpada colocada acima de sua cabeça, ele desperta seu companheiro – que já estava em cena, mais ou menos escondido sob alguns tecidos colocados por cima de uma cadeira de rodas à qual estará preso todo o tempo. Tal parceiro é o oposto do alegre bobalhão. Desagradável, soberbo, cruel, ele submete sua afável companhia a uma constante relação de sádica subserviência. Segue-se, então, uma série de ações físicas – nenhuma fala é proferida; ouvem-se somente aqui e ali rumores e murmúrios – que atam aquelas duas figuras entre si mesmas e ao estranho e melancólico mundo recriado em cena.
A sobreposição dos códigos culturais de que se vale a empreitada é de uma engenhosidade envolvente. O espectador que conhece a obra de Beckett haverá de reconhecer de imediato Clov e Hamm em cena e terá muito prazer em perceber que a partitura das ações físicas que ambos os atores executam com muita expressividade, mesmo não sendo idêntica à do texto-matriz, mantém com ele uma relação de clara similitude, constituindo um caso muito bem-sucedido de transcriação criativa entre as duas linguagens teatrais experimentadas, a do próprio Beckett e a do circo-teatro. Dramaturgia, direção e atuação são naturalmente responsáveis, cada uma a seu modo, pelo consistente resultado obtido. Entretanto, também o espectador que ignore por completo a dramaturgia beckettiana deixar-se-á envolver por essa expressividade – uma vez que as ações construídas em cena têm vida própria, partindo de uma teatralidade assentada na singeleza e no despojamento, qualidades tão caras à comicidade do circo. Isto é, não é preciso conhecer a obra do escritor irlandês para usufruir plenamente do jogo teatral bastante fluido que se estabelece em cena.

É como se a criação da Cia. Azul Celeste houvesse conseguido reduzir Fim de jogo a uma forma neutra – sua pura fisicalidade –, preservando somente o aspecto residual de que se valem o Hamm e o Clov originais: a hostilidade, o embate, a luta, o desafio mútuo, enfim, que sempre esteve na base da comicidade das duplas de palhaços. Entretanto, não obstante descarte o universo discursivo do velho Sam, MUNDOMUDO consegue se valer da mesma atmosfera de gravidade metafísica perseguida pelo autor de Esperando Godot, oscilando entre o lirismo e a tragédia, entre o sublime e o burlesco. A palavra é retirada de Beckett, e ele se torna dono de um humor circense inatacável; a eloquência do silêncio é colocada no universo do circo, e a arte do picadeiro se reveste de um caráter de inequívoca tragicidade.
Simples e direto em seu poder de comunicação com a plateia, MUNDOMUDO aos poucos nos revela seu maior segredo, em chave de paradoxo: a simplicidade tem lá suas sinuosidades, uma vez que nós, espectadores, vamos descobrindo brechas insuspeitadas nas ações banais que se descortinam aos nossos olhos. Os corpos dos atores e os gestos de que eles se investem transformam-se em instrumentos de inquietantes inquirições. Por que o Outro quase sempre se transforma em um objeto arisco? Por que algo deste Outro, que nada mais é do que meu Oposto Complementar, sempre escapa nas malhas da convivência humana? Seria a solidariedade uma terrível ficção? Depois da possibilidade da palavra – arremedando Clarice –, só nos restaria mesmo o caos orgânico?
O mundo em que este Hamm e este Clov brasileiros vivem é fragmentado e sem sentido, embora estabeleça com outros mundos que conhecemos uma relação de analogia. Da harmônica que o palhaço desengonçado toca por duas ou três vezes saem algumas notas musicais que remetem tanto a Die Moritat von Mackie Messer, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, como a Coração materno, de Vicente Celestino. Estamos aqui às voltas com um espetáculo de inspiração épica, sim, mas de feitura melodramática – como convém à comicidade que nos define.

Jorge Vermelho e Henrique Nerys compõem seus personagens por meio de uma corporeidade plástica que por si só é um achado. A cenografia criada pelo primeiro também priva da mesma plasticidade. O varal de lâmpadas suspensas detém uma poesia toda própria, e a iluminação do espetáculo (concebida por Vermelho em parceria com Alexandre Manchini Jr.) pontua a todo momento a atmosfera de melancólico lirismo habilmente construída. Os figurinos de Linaldo Telles ressaltam as duas figuras de palhaços, o Branco e o Augusto, explorando texturas e cores impregnadas da ação do tempo – como convém a este circo longevo, atávico, imemorial.
Às portas do século XXI, em que a arte cada vez mais emprega a tecnologia para se comunicar com as novas gerações, MUNDOMUDO se vale da fragilidade artesanal da cultura circense para resistir à tagarelice geral que nos rodeia. Palhaços do teatro e do circo também podem mergulhar no silêncio. E mesmo assim terem muito o que dizer a nós, cibernéticos falastrões.

Wellington Andrade
Revista CULT